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Em Brasília, religiões se unem em oração pela paz na Palestina

Os horrores da violência na Faixa de Gaza, que em 27 dias vitimou […]

1_0_817575Os horrores da violência na Faixa de Gaza, que em 27 dias vitimou quase 2.000 pessoas, em sua grande maioria mulheres e crianças palestinas, contrastam profundamente com a paz encontrada em ambientes de oração, a exemplo do Templo Budista de Brasília (DF). O lugar sagrado reuniu, na manhã de sábado, 2, pessoas de diversas correntes religiosas, Igrejas e organizações em um momento de oração e reflexão pela paz na Palestina.

O anfitrião responsável pelo Templo, monge Shôjo Sato, evocou a harmonia de todo o universo. “Inspirando eu me acalmo, expirando eu sorrio. Inspiro a sabedoria e me acalmo, expiro a compaixão e sorrio”, dizia o monge introduzindo a meditação. “Sabedoria e compaixão são atitudes que mais fazem falta aos responsáveis pelas atrocidades”.

Para o monge, o que acontece entre Israel e Palestina, leva a humanidade a constatar mais uma vez os males do ego no ser humano. “O ego da ganância e da cobiça, o ego da raiva, ressentimento e vingança, o ego do preconceito e da ignorância que acontece na Faixa de Gaza”. E acrescentou: “Que a nossa meditação entre budistas e não budistas leve a paz a todos, especialmente aos que estão sofrendo agora”.

A saudação inicial mostrou expressamente o caráter universal do encontro. “Em nome de Deus de todos os nomes, do Deus de nossos pais, mães e antepassados; em nome de Deus que a todos nos faz da ternura e do pó; acolhamo-nos mutuamente num mesmo anelo de paz”, pronunciavam os lábios de quem não se cala apesar do silêncio e da indiferença dos povos.

O itinerário do ato, organizado pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), em parceria com a Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP), organismo da CNBB, e o Templo Budista de Brasília (Shin Budismo Terra Pura), incluiu mantras, canções, danças circulares, apelos de paz, reflexões e gestos simbólicos.

Os interesses por detrás do conflito

“Por trás dos conflitos existem interesses econômicos e bélicos que são colocados acima da vida”, afirmou a pastora Romi Becker, secretária executiva do Conic, ao conduzir a cerimônia. “Queremos reafirmar a nossa esperança de que as transformações econômicas, sociais e humanas são possíveis e que estamos cansados de uma humanidade obsoleta que só sabe viver da guerra”, reforçou.

Ao agradecer os que compareceram para o ato, Pedro Gontijo, coordenador da CBJP, destacou a importância das religiões e movimentos sociais na defesa da vida. “Que toda essa energia das lutas e do que nós vivenciamos seja colocada ao serviço das pessoas, da população de Gaza que está sofrendo neste momento”.

Em meio à assembleia, Gilberto Sousa, membro da CBJP, lembrou que muitas vezes na história da humanidade, as religiões foram legitimadoras de guerras, mas que, “no contexto mundial atual, a partir de suas espiritualidades, elas têm um papel decisivo na promoção da paz, em especial na Palestina”.

Um mantra da Nigéria entoado em uma das línguas daquele país africano pelo biblista anglicano do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (Cebi), Paulo Ueti, reforçou o ambiente inter-religioso e pluricultural do encontro. O mantra evocava os espíritos dos antepassados em favor do equilíbrio.

Líderes cobram do governo brasileiro posições mais firmes

Momento marcante foi a leitura de trechos de mensagens publicadas nos últimos dias em favor da paz no Oriente Médio. Uma nota assinada por cerca de 240 líderes religiosos de diversas confissões de fé, igrejas, comunidades e pastorais, pede ao governo brasileiro: “1) que se pronuncie abertamente contra as agressões que os Estado de Israel impõem à população palestina em Gaza e na Cisjordânia; 2) que use todos os caminhos e instrumentos do direito internacional para terminar com a ocupação israelense na Palestina; 3) que interrompa todas as relações militares com o Estado de Israel; 4) que não estabeleça relações econômicas com empresas baseadas nos assentamentos ilegais de Israel na Cisjordânia”.

O uso da religião e do nome de Deus para justificar explorações, agressões e guerras também foi repudiado. O Cebi, que faz uma leitura popular dos textos sagrados, assim se expressou: “Embora o Cebi reconheça que a violência na região é proveniente de ambas as partes, entretanto, o terrorismo é provocado majoritariamente pelo governo israelita que fortemente armado e com a conivência de potências ocidentais coloque em prática o projeto destruindo o povo palestino”. Na mensagem, o Cebi também denuncia a reprodução de interpretações fundamentalistas e tendenciosas segundo as quais Deus teria constituído o povo de Israel como povo eleito o que permitiria massacrar outros povos para garantir a posse da terra. “O Cebi reafirma a igualdade das nações reconhecendo que todos os povos são povo de Deus, pois Ele não faz distinção de pessoas”.

O bispo Primaz da Igreja Episcopal Anglicana, Francisco de Assis, pede mais ação da comunidade internacional. “O conflito entre Israel e Palestina tem alcançado níveis insuportáveis de violação de direitos humanos e da excessiva força militar israelense contra o povo que habita na região de Gaza. Rechaçamos veementemente a ofensiva de destruição de Gaza pelo Exército Israelense e pedimos à comunidade Internacional que pressione com todos os meios o governo de Israel a interromper essa matança inaceitável de civis inocentes”.

Foi lembrado ainda o apelo que o Papa Francisco fez durante sua recente visita à Terra Santa. “Chegou o momento de pôr um ponto final numa guerra que parece não ter fim, uma guerra que não para de ceifar vidas de cidadãos indefesos e inocentes”.

O secretário geral do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), reverendo Olav Fykse Tveit, fez declarações onde disse sentir-se triste com a devastação e pediu um imediato cessar das hostilidades em Gaza. “A paz em Israel e na Palestina virá somente através da restauração da compaixão entre as pessoas na busca comum de caminhos que levam à justiça e a paz”, argumenta o secretário na nota.

Gesto lembra vítimas de conflitos

Na sequência, um gesto simbólico fez memória às vítimas das atrocidades. Ao som da música Rosa de Hiroshima, com profunda comoção, os participantes depositaram pétalas de flores em bacias com água colocadas no centro do Templo, o qual foi construído em 1973 no estilo da arquitetura religiosa japonesa.

A peregrinação pela paz prosseguiu no momento em que o grupo desceu as altas escadas para formar um círculo diante do grande sino no pátio do Templo. Monge Sato explicou que o toque do sino expressa a esperança da humanidade em construir um mundo melhor. Evocou conceitos-chaves do budismo como o “dharma”, sabedoria acumulada pela humanidade. “A ignorância não é algo definitivo, pois a sabedoria é sempre atualizada. Essa violência que assistimos hoje é uma ignorância”, arrematou Sato, ressaltando a importância da fraternidade universal. Em seguida, tocou por três vezes o grande sino para ecoar a luz da paz aos quatro cantos da terra.

O ato encerrou com mais uma dança circular no interior do Templo onde, entre gestos e abraços, os presentes expressaram palavras-chaves para se viver na paz. As danças circulares são comuns nas culturas tanto judaicas como árabes.

“Foi um momento de nos alimentar da presença de Deus para sair em missão pelo mundo”, avaliou Pedro Gontijo (CBJP). “É hora de mobilizar mais pessoas, fazer eco a essa reflexão e juntar mais forças para acabar com esse conflito”, afirma.

Para a pastora Romi Becker, o que sobressai é a compreensão de que para a resolução do conflito na Faixa de Gaza e na Cisjordânia é necessário “o comprometimento de todas as pessoas, autoridades políticas e sociedade civil. São necessárias medidas reais e concretas como, por exemplo, o boicote econômico ao Estado de Israel”. A secretária do Conic explica, porém, que a solidariedade com o povo palestino e as críticas ao Estado de Israel, “não significam antissemitismo. A solidariedade também se dirige ao povo judeu que sofre com os impactos do conflito”.

Participaram da oração, representantes do Templo Budista, do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), Igreja Episcopal Anglicana, Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP), Comissão dos Direitos Humanos, Pastoral da Juventude, Rede de Sustentabilidade, Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (Cebi), Iniciativa das Religiões Unidas (URI), Centro Cultural de Brasília (CCB), Pontifícias Obras Missionárias (POM), Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Comunhão Espírita do Brasil, Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Movimento das Mulheres Camponesas (MMC), Partido Comunista Brasileiro (PCB) e Wiccas.

 

 

 


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