Redentoristas

Um novo olhar para Santo Afonso Maria de Ligório

Confira artigo publicado pelo Fr. Eduardo de Souza Montalvão, da Congregação do Santíssimo Redentor

Como muitos Santos famosos, Santo Afonso teve que ser desfigurado por seus primeiros biógrafos. Muitos acreditam que sabem disso e, por sua vez, dizem falsas manifestações contra a verdade. Muitas vezes fizeram dele um homem angustiado, devorado pelos seus escrúpulos, sendo assim, um homem particularmente equilibrado, ainda que, como todo velho, tenha encontrado problemas psíquicos no final da vida ligados à sua idade excepcionalmente avançada. Apresentaram-no como um advogado distraído que perdeu um grande processo por esquecimento, sendo assim, um profissional, cuja competência foi reconhecida em todos os tribunais da Europa, mas, que foi vítima de um esquema político.

Fizeram-no também, fundador da Congregação do Santíssimo Redentor que fundou quando, pelo contrário, sendo sempre amado pelos irmãos, foi vítima da luta entre o Rei de Nápoles e o Sumo Pontífice de Roma. Não foi colocado às portas de seu Instituto, mas foi dividido em dois por decisão do Papa em 1780: Na verdade, Pio VI rejeitou o reconhecimento das casas localizadas no Reino de Nápoles. Afonso, até sua morte, sofreu essa separação anunciando a próxima reunificação de sua Congregação. Mais tarde, o Papa lamentou “ter feito um Santo sofrer”. Ele tem sido mencionado como o homem do medo, o pregador da morte e do inferno, sendo, portanto, um homem sorridente que frequentemente repetia o refrão de Santo Felipe Neri (1515-1595): “Alegremente!”, “Sejas feliz!”. Santo Afonso não é o personagem que você imagina, ele não era o homem do medo, pelo contrário, ele era o homem da misericórdia e da confiança. Se fosse necessário falar da alegria e da esperança da Igreja do século XVIII, sem dúvida, Santo Afonso seria mencionado.

PARTE I

APÓSTOLO LEIGO

Ele nasceu em Marianella, uma pequena cidade perto de Nápoles, em 27 de setembro de 1696. Na casa dos Ligório ocorreu uma explosão de alegria: Seu José e Dona Ana, sua esposa, casaram na primavera do ano anterior, se abraçam no primeiro filho. Diz-se que um amigo da família, um jesuíta, São Francisco de Jeronimo (1642-1716), profetizou no seu berço: “Esta criança viverá muito, envelhecerá, não morrerá antes dos 90 anos. Ele será um bispo e fará grandes coisas para Deus” (REY-MERMET, 1982, p. 46). Todos eles apontam para os dons da criança. Seus pais farão com que eles deem frutos. Eles confiam seu filho a um tutor escolhido entre os melhores. Gaetano Greco lhe ensina música; Solimena, o último grande mestre da pintura barroca napolitana, iniciou-o no uso dos pincéis e no segredo das cores. Na idade de 12 anos, ele entrou na Universidade Real de Nápoles. Aos 16 anos e meio, doutorou-se em Direito Civil e Direito Eclesiástico. Além disso, carrega consigo um nome completo: aos 14 anos recebe a espada de prata dos cavaleiros e a partir de agora participa na gestão dos assuntos municipais.

Aos 20 anos, é eleito juiz de toda a cidade. Cavaleiro, juiz, advogado, ocupa seu lugar nos escalões mais elevados da sociedade. Ele também é um homem universal: versado em literatura, matemática, física, astronomia e filosofia, sem esquecer as artes plásticas. Ele escreve poemas, desenha com talento, pinta quadros de Cristo e de Nossa Senhora e em tudo o artista tem certeza de seu ofício. Mas na música, escreve Rey-Mermet, ele terá: “a categoria de um professor reconhecido que deixa seus poemas e melodias semeados no folclore dos cantores mais cantados do mundo…” (1982, p. 91). Mesmo depois de 60 anos, ele vai compor um Dueto para vozes e cordas que seria lançado em Viena, Paris e Roma. Sua música é gravada em disco, em programa de concerto, passa pelas ondas do rádio e, de repente, vem à tona na melodia de um filme. E tudo discretamente, às vezes sem “assinatura”, mas é ele.  E os conhecedores o reconhecem. Afonso é um homem de seu tempo. Ele conhece René Descartes, cuja obra  deixa uma marca em seu espírito. Por isso, o rigor do seu método, o seu gosto pelas ideias claras, o seu respeito pela liberdade de consciência, a sua confiança na razão e a sua vontade de fazer-se compreender por todos. Sempre sem esquecer o lado prático do que escreve. Neste ponto da sua vida, você não pode olhar para Afonso sem se lembrar das palavras de Santo Irineu (130-202): “A Glória de Deus é o homem cheio de vida”. Afonso é aquele homem cheio de vida e da sua existência, uma existência aquecida pela Paixão de Cristo, porque é um leigo enraizado no mundo, é um homem de fé: um “fiel” que nutre e irradia a sua fé. Desde muito jovem, de joelhos, aprendeu a rezar, a amar Jesus e Maria, os dois grandes amores da sua vida. Já adulto, aos 18 anos seu pai o levou em sua companhia para um primeiro retiro fechado. Muito em breve adquiriu o hábito de visitar o Santíssimo Sacramento e a Virgem Maria todos os dias. Para esse momento de oração, ele escolhe a igreja onde o Santíssimo Sacramento está exposto perpetuamente, e depois de sua adoração vai a outra igreja para rezar à Virgem.

Será que pensou em ser padre? De jeito nenhum! É verdade que, desde os 18 anos, ele se aposentou regularmente todos os anos. Ele tem um fervor que encheria de inveja muitos padres que o observavam, segundo seu biógrafo Antonio Maria Tannoia. Então, por que você não sonha em se tornar um padre? Simplesmente porque neste momento já existem mais de 10.000 só na cidade de Nápoles. E neste caso, por que mais um padre? Por outro lado, a Igreja não precisaria de mais um advogado cristão, de mais um apóstolo leigo? Manifestamente, Afonso escolheu ser este apóstolo leigo. Parece não haver outra explicação para o fato de que em 1722 ele prometeu “celibato para o Reino”. Levando a sério as palavras de Cristo ao jovem rico, ele renuncia explicitamente à sua primogenitura em favor de seu irmão Hércules. Afonso se entrega, se entrega a Deus e aos homens, seus irmãos. A primeira coisa em casa: em seu processo de canonização, o padre Tannoia destacou como o jovem Afonso converteu seu escravo muçulmano Abdallah: “Eu sei – segundo as palavras de Dom Caetano e Dom Hércules de Ligório – “que o Servo de Deus, jovem e maduro, foi modelo de virtude cristã para todos, especialmente para si. Como seu pai era capitão das galés e tinha muitos escravos a seu serviço, um destino para o Servo de Deus. Pouco depois, o escravo expressou que queria ser cristão sem que ninguém o insinuasse. Questionado sobre como e por que havia tomado tal resolução, ele respondeu: ‘O exemplo do meu mestre é o que me comoveu; Essa religião que faz meu mestre viver com tanta honestidade, piedade e tanta humanidade para comigo não pode ser falsa” (1982, p. 119).

No relacionamento com seus amigos: Santo Afonso tem amigos em sua vida que contam muito. Acima de tudo, são seus amigos fiéis, companheiros de oração com os quais se encontra todas as noites na hora da oração diante do Santíssimo; também, companheiros de retiro que reúne todos os meses para um dia de retiro onde há tempo para refletir, compartilhar, rezar e cantar juntos; mais tarde, alguns se tornarão seus companheiros de missão. Afonso também ama a vida: nas horas vagas gosta de jogar cartas, adora teatro e principalmente música. Mas não pensa apenas nele. Ele pensa nos outros e logo se compromete com uma associação: primeiro, a dos jovens nobres, depois, em agosto de 1715, ao se formar em direito, entra na de doutores. “Ele ia lá várias vezes por semana – escreve o padre Berruti – e estava ocupado arrumando as camas, trocando a roupa, preparando os remédios, enxugando as feridas, dando aos enfermos todos os serviços de que precisavam sem se deixar ser contratado pelo fedor, náusea ou grosseria dos próprios pacientes. Dedicou-se a estes ofícios com alegria espiritual e com tanto respeito que visivelmente foi Jesus Cristo a quem serviu e honrou na pessoa deste infeliz” (1982, p. 115).

Na sua profissão de advogado: Aos 18 anos é advogado em pleno exercício da profissão, exercendo-a com competência e consciência. Logo sua reputação ultrapassa as fronteiras do Reino: ele é considerado o melhor advogado de Nápoles. No ano de 1723, quando o duque Orsini di Gravina lhe confiou seus interesses contra o grão-duque da Toscana, Cosimo III de Medici; nunca perdeu um processo. Ele estudou meticulosamente todos os detalhes do arquivo (feudum): uma história antiga e complicada. Uma questão que envolve grandes somas de dinheiro do: cerca de 600.000 ducados[1] uma aposta de enormes quantias. A sua convicção está formada: tem a certeza, confirmada pela opinião de eminentes juristas, dos plenos direitos do seu cliente. Ele o defende com eloquência e ardor redobrado. Os adversários respondem na direção oposta. Por fim, o veredicto do tribunal caiu sobre Afonso como uma facada. O presidente do tribunal, aparentemente amigo de Afonso e sua família, nega o motivo. Infâmia brutal: não são os argumentos da parte contrária que o influenciaram. A baixa pressão política e os subornos mais vis não deixaram de ter relação com esse veredicto. Em suma, neste assunto a amizade foi traída e a direita pisoteada. Como vingança por sua mais nobre indignação, Afonso deixa escapar estas palavras: “neste caso, a amizade foi traída e os retos, pisoteados”. Como vingança por sua mais nobre indignação, Afonso deixa escapar estas palavras: “Mundo, eu te conheço! Adeus tribunais!” (cf., 1982, p. 131). Afonso sai furioso, indignado.

De volta ao palácio de seu pai, ele se tranca em seu quarto, recusando visitas e comida. Finalmente, após três dias, pela insistência de sua mãe, ele abre a porta. Ele sai, mas já é outro homem. Poucos dias depois, o 32º aniversário da Imperatriz de Viena, esposa do soberano das Duas Sicílias, o Imperador Carlos VI, é comemorado na corte. Na cidade, a alegria popular transborda por toda parte. Afonso é convidado para o tribunal. Se nega. Ontem ele despediu a sua clientela; hoje vai para o Hospital dos Incuráveis, onde há anos realiza o seu ofício de samaritano. Lá o Senhor o espera. No final do serviço aos enfermos, uma luz o envolve e uma voz se faz ouvir no coração: “Afonso! Deixe o mundo e entregue-se a mim!”, “Em prantos diz: Meus Deus, resisti por demais a vossa graça. Eis-me aqui: fazei de mim o que quiseres” (1982. p. 133). De onde estava, o jovem cavalheiro vai para a igreja da Redenção dos Cativos, dedicada à Nossa Senhora das Mercês (ou, Santuário marial da “libertação dos cativos”).

Depois de rezar diante de Nossa Senhora, o jovem Afonso se entregou inteiramente ao Senhor: para sublinhar o seu compromisso, levantou-se, tirou a espada de cavaleiro e colocou-a sobre o altar da Virgem. Era 29 de agosto de 1723. Afonso nunca se esquecerá daquele dia: durante toda a sua vida o considerará como “o dia da sua grande conversão”. Jamais voltará a Nápoles sem fazer uma visita ao seu benfeitor: “Ela é – dirá um dia mostrando a imagem de Nossa Senhora das Mercês – que me libertou do mundo e me fez entrar no estado eclesiástico” (cf., 1982. p. 133).

Um ducado no século XVII teria o valor da moeda local era de estima de vinte e cinco ducados. no tempo de Nápoles. Fazendo uma conversão atual com o dólar em alta de cinco e quarenta e três, vezes os vinte e cinco ducados mais a soma total dos 600.000 mil ducados: estima-se no valor de oitenta e um mil, quatrocentos e cinquenta mil reais, se fosse hoje o valor a ser recebido.

Bibliografias complementares:

-Oficina de Aprendizagem: Espiritualidade Missionária Redentorista. indivíduo. 13 de julho de 2000. San Luis Potosí, SLP México.
-Redemptorist Spirituality, Vol. 3. Jean Marie Sègalen. Roma, Itália 1994.

(Em breve a publicação da PARTE 2)

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