Homilia de Dom Jeová Elias Ferreira

Bispo da Diocese de Goiás presidiu a Novena Solene, no terceiro dia da Romaria 2021

XIII Domingo do Tempo Comum – Ano B (Mc 5,21-43) Pai Eterno – 3º dia da Novena

Tema geral: “Pai Eterno, diante de vós, somos todos irmãos”

Subtema: “No cultivo da empatia”

Queridos devotos e queridas devotas do Divino Pai Eterno, queridos irmãos e irmãs que rezam conosco pela TV Pai Eterno, TV Aparecida, Rádio Difusora Pai Eterno e demais mídias,

O tema geral proposto para esta novena, “Pai Eterno, diante de vós, somos todos irmãos”, evidencia, num primeiro momento, que todos nós somos filhos de Deus. A filiação divina não é exclusividade de uma única pessoa, mas universal. Deus tem muitos e diversos filhos e filhas. Na concepção franciscana, evocada pelo Papa Francisco na Laudato Si, Deus tem uma paternidade que envolve todo o cosmo, abraça toda criatura. “Cada criatura reflete algo de Deus e tem uma mensagem a nos transmitir, ou a certeza de que Cristo assumiu em Si mesmo este mundo material e agora, ressuscitado, habita no íntimo de cada ser, envolvendo-o com o seu carinho e penetrando-o com a sua luz” (Laudato Si n. 221). Os cristãos são convidados pelo Papa a estender a graça divina recebida à relação com as demais criaturas e com o mundo que os rodeia.

A filiação do mesmo Pai Eterno nos irmana. Somos todos irmãos, mesmo que tão distintos e marcados pelas variadas particularidades. Temos igual dignidade, concedida por Deus na nossa criação e assumida por nós católicos no sacramento do batismo. A dignidade humana é inerente a cada pessoa e independe dos seus atributos. Ela está no DNA de cada ser humano.

As diferenças que possuímos não nos tornam inimigos mortais, mas nos enriquecem; são necessárias, manifestam a generosidade divina nos seus multiformes dons concedidos aos seres humanos. A uniformidade anula a pessoa e torna-a autômata. Contudo, o que deveria ser visto como uma riqueza, por muitas pessoas, torna-se dificuldade com a prática da intolerância, presente nas relações humanas, contra os que não se enquadram numa determinada visão de mundo.

O tema proposto para este 3º dia da novena, “no cultivo da empatia”, nos convida a ter relações humanas marcadas pela fraternidade. Mais do que ter simpatia, cultivar a empatia é alimentar o sentimento de compreensão para com as outras pessoas, experimentar os sentimentos que a outra pessoa está vivenciando, e dispor-se a ajudar a quem necessita. É ser solidário com quem sofre, de modo concreto, empenhando-se no cuidado, servindo. Como diz o Papa Francisco na Fratelli Tutti, “o serviço fixa sempre o rosto do irmão, toca a sua carne, sente a sua proximidade e, em alguns casos, até ‘padece’ com ela e procura a promoção do irmão”, ultrapassando qualquer ideologia (n. 115). A solidariedade é uma grande virtude que exige o empenho de todos, mas, especialmente, daqueles que têm compromisso educativo e formativo: famílias, educadores, agentes culturais e dos meios de comunicação social (F. T. n. 114).

O Evangelho de Marcos, proposto para este XIII domingo do Tempo Comum, narra o terceiro episódio de cura, com a manifestação da misericórdia de Jesus em favor de duas mulheres, vencendo dois poderosos inimigos: uma enfermidade incurável daquela com hemorragia, e a morte da adolescente. Jesus é apresentado como aquele que se preocupa com a vida das pessoas, restituindo a saúde da enferma, e como vencedor da morte, aparentemente irreversível, devolvendo a vida da jovem. Ele tem empatia por quem sofre, não fica indiferente à súplica sofrida e confiante do pai aflito com a enfermidade da filhinha, nem da mulher angustiada com um sangramento que a acompanha por doze anos. Mas também conta com a confiança das pessoas sofridas, atrai multidão. Ele não é antipático, nem indiferente diante do sofrimento humano.

As duas mulheres agraciadas pela ação de Jesus pertenciam aos grupos marcados pelo preconceito e desrespeito de uma sociedade machista. A que tinha hemorragia, além do sofrimento da enfermidade, carregava a dor de ser considerada ritualmente impura e sofria as prescrições impostas pela lei. Poderia ser equiparada a uma pessoa portadora de uma enfermidade altamente contagiosa, que não pode tocar em nada. Tornava-se fonte de contaminação para os outros. Estivera privada da intimidade conjugal e do dom da maternidade ao longo dos doze anos. A menina, morta antes da possibilidade de contrair matrimônio, também tornara-se impura pela precoce morte.

A vida das pessoas conta mais do que as diferenças: Jesus não quer saber se a menina é filha de um chefe da sinagoga, se a mulher é impura e não pode ter contato com as coisas e com outras pessoas… Ele vai além da lei que segrega e pune quem sofre. Ele rompe com a prescrição de tocar em quem morreu e de deixar-se tocar por uma pessoa considerada impura. Ele vê refletida em cada pessoa, especialmente nas que sofrem, a manifestação da beleza da paternidade divina.

O amor de Jesus vai além de penosos sentimentos; traduz-se em gestos, devolve a saúde da mulher sofrida e excluída com a hemorragia, e restitui a vida da adolescente que perecera. A fé depositada nele, pelo pai sofrido e pela mulher atormentada, e a esperança de obter a graça almejada não são frustradas.

Neste tempo doloroso de pandemia, são tantos os sofridos Jairos que acorrem a Jesus na esperança de obter o restabelecimento da saúde de um filho, de um pai, mãe, irmão, amigo… que imploram, confiantes, como Jairo: “Minha filhinha está nas últimas. Vem e põe as mãos sobre ela, para que ela sare e viva!” (Mc 5,23). Um pequeno grupo adentra o ambiente dos leitos de dor, solidário nos cuidados e empenhando-se na busca de cura, na luta pela vida. Tantas pessoas nutrem empatia, são solidárias, correm riscos no serviço aos outros.

Mas há também os profetas da morte, que não querem incomodar o deus mercado, tampouco ser incomodados. Que não somente são indiferentes às lágrimas dos familiares e amigos dos mais de quinhentos mil mortos no nosso maltratado país, mas até zombam da sua dor, como os que zombaram de Jesus ao afirmar que a vida não perecera (Cf. Mc 5,40). A vida de cada pessoa é preciosa aos olhos de Deus e da Igreja. Ignorar o sofrimento humano é ignorar a presença de Jesus Cristo entre nós.

Diante da notícia da morte de sua filha, Jairo é convidado por Jesus a não ter medo, a ter fé (v. 36). Como aquele pai aflito, também não devemos ser movidos pelo desespero, mas pela fé e pela esperança. Como diz o Papa Francisco: “Não fujamos da ressurreição de Jesus; nunca nos demos por mortos, suceda o que suceder. Que nada possa mais do que a sua vida que nos impele para diante!” (Evangelii Gaudium n. 3).


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