Apoio Espiritual

Fraternidade e amizade social

Leia artigo especial do arcebispo de Goiânia, Dom Washington Cruz, sobre a nova encíclica do Papa Francisco: Fratelli tutti

No dia 3 de outubro de 2020, junto ao túmulo de São Francisco, em Assis, o papa Francisco promulgou uma nova encíclica, intitulada Fratelli tutti (todos irmãos), sobre a fraternidade e a amizade social. Este novo documento se parece irmão gêmeo da encíclica Laudato sí (Louvado sejas), escrita há cinco anos. Ambos têm como fonte de inspiração a espiritualidade franciscana, com a sua respectiva visão de fraternidade universal, aonde habita o sonho de uma humanidade irmanada entre si, com a natureza, o infinito e a eternidade. Todos irmãos são duas singelas palavras que explicam “o essencial duma fraternidade aberta, que permite reconhecer, valorizar e amar todas as pessoas independente da sua proximidade física, do ponto da terra onde cada um nasceu ou habita” (n. 1).

Foi a própria vida de Francisco de Assis que motivou o papa a refletir acerca da “fraternidade aberta”. Mas, ele próprio reconhece que se sentiu motivado “também por outros irmãos que não são católicos: Martin Luther King, Desmond Tutu, Mahatma Mohandas Gandhi e muitos outros” (n. 286). “Além disso [afirma o papa Francisco], se na redação da Laudato sí tive uma fonte de inspiração no meu irmão Bartolomeu, o Patriarca ortodoxo que propunha com grande vigor o cuidado da criação, agora senti-me especialmente estimulado pelo Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb, em quem me encontrei, em Abu Dhabi […]” (n. 5). Se a motivação do papa foi macro ecumênica, também o objetivo da encíclica Fratelli tutti é que esta encíclica não seja exclusivamente para os católicos, mas que possa humildemente alcançar e dizer algo de significativo a todos os habitantes da terra.

Enquanto a encíclica Fratelli tutti estava sendo escrita, irrompeu a pandemia do Covid-19, que nos permitiu enxergar as nossas falsas seguranças e a incapacidade de agirmos em conjunto. A super conexão digital apenas revelou, ainda mais, um mundo fragmentado e com dificuldades para construir soluções universalmente fraternas. Por isso, disse o papa Francisco, “desejo ardentemente que, neste tempo que nos cabe viver, reconhecendo a dignidade de cada pessoa humana, possamos fazer renascer, entre todos, um anseio mundial de fraternidade” (n. 8).

Há diversos sinais que escancaram a realidade de um mundo fechado, com seus conflitos anacrônicos, “nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos”, sonhos desfeitos em pedaços (dentre eles, o sonho de uma Comunidade europeia ou da fraterna integração latino-americana), fim da consciência histórica e emergência de novas formas de colonização cultural, exasperação política e ideológica, descarte dos pobres, dos deficientes, dos nascituros e dos idosos, direitos humanos não iguais para todos, guerras, atentados e perseguições por motivos raciais ou religiosos, globalização e progresso sem um rumo comum, migrações forçadas  e sem dignidade nas fronteiras, movimentos digitais de ódio e destruição, isolamento consumista e acomodado, sujeições e desprezo pela própria identidade cultural. Estávamos como que cegos, avançando, adentrando e assimilando este projeto fechado de mundo. Eis, então, que a humanidade foi varrida por uma pandemia, trazendo consigo “a consciência de sermos uma comunidade mundial que viaja no mesmo barco, onde o mal de um prejudica a todos” (n. 32).

A parábola do bom samaritano, então, se repete no presente. O meu próximo não tem fronteiras, ele é o meu irmão! Por isso, a encíclica Fratelli tutti é um forte apelo para pensarmos e gerarmos um mundo aberto, termos um coração aberto ao mundo inteiro, praticarmos uma política que fecunde o bem comum, exercermos o diálogo sem disputas dialéticas de narrativas, construirmos novas pontes de encontro social, recuperarmos a amabilidade e suscitarmos no coração das religiões o serviço à fraternidade. Enfim, para uma civilização em ruínas, um sonho franciscano: que sejamos mundialmente “todos irmãos”!

Dom Washington Cruz, arcebispo de Goiânia

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